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Um campo repleto de possibilidades.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

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Por Wanessa Rodrigues

Quando criança, a produtora rural Ambrosina Simão Machado não teve a oportunidade de frequentar uma escola. Não aprendeu a ler nem adquiriu a habilidade da escrita e, por isso, passou parte de sua vida sentindo-se inferior a outras pessoas. Mas, depois dos 50 anos de idade, sua história foi transformada. Mesmo sem ser alfabetizada, aceitou o desafio de participar do programa de Inclusão Digital Rural, promovido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) de Goiás em todo o Estado. Foi, então, que ela deu os primeiros passos para realizar um antigo sonho: escrever o próprio nome.

Ambrosina conhecia as letras, mas não sabia juntá-las. Assim, aprendeu a navegar pela internet por meio de uma cola feita pelo instrutor do curso, ministrado no Sindicato Rural de Anápolis, a 54 quilômetros de Goiânia. “Olhava no papel e batia a letra no computador”, conta. Três semanas após concluir o treinamento, veio a surpresa. A produtora rural chegou até o estabelecimento, chamou o professor em um canto e mostrou seu mais novo feito. Pegou um papel e, com letras trêmulas, características de quem ainda está em fase de aprendizado, escreveu o nome.

O simples ato de escrever o próprio nome mudou a vida da mulher já de cabelos brancos e que não abre mão de andar de pés descalços. Abriu portas para o novo e para experiências além de sua casa na zona rural, no conjunto de Chácaras Marie Madeleine, no distrito de Goialândia. Hoje, aos 58 anos, ela participa de todos os cursos que consegue e cultiva um novo sonho: frequentar uma escola e, quem sabe, até escrever um livro com sua história.

Assim como aconteceu com Ambrosina, o curso de Inclusão Digital Rural tem transformado a vida de outras pessoas que vivem no campo, a maioria delas com baixa escolaridade. Iniciado no Estado em 2009, o treinamento já teve 4.853 participantes em 151 municípios goianos (veja quadro), segundo dados do Senar Goiás. As solicitações de cursos são feitas por meio dos sindicatos rurais de cada município, de acordo com a demanda observada por mobilizadores.

Marcelo Penha Silva, coordenador do programa em Goiás, observa que o objetivo é oferecer, sem custo algum, o conhecimento necessário para que produtores rurais, trabalhadores rurais e famílias saibam utilizar o computador como ferramenta de gestão, pesquisa na internet, planilhas de controle e edição de texto para solicitação e comunicados. “E os resultados têm sido surpreendentes, pois mesmo quem nunca teve contato com o computador, aprende a usar a ferramenta como essencial para controle de gestão”, observa.

Para isso, o programa trabalha com três instrutores credenciados e que entendem a necessidade do público alvo. O curso, com duração de 16 horas (divididas em dois dias), tem foco em conhecimentos básicos de World, Excel e Internet. “O curso permite o contato com o mundo da tecnologia. E, por meio da vivência de operação do computador, os participantes conseguem melhoria na qualidade de vida, integração nas redes sociais, busca de informação e controle dos negócios”, diz Silva.

Aparato

O programa de Inclusão Digital do Senar Goiás conta com duas caixas (chamadas de cases) que contêm, cada uma, cinco computadores portáteis. Além disso, utiliza o ônibus do Senar Central, no qual estão instalados outros dez computadores em uma verdadeira sala de aula, com mesas e ar condicionado. A unidade móvel é utilizada pela regional de Goiás desde 2010.

Inovação

Para levar ainda mais conhecimento por meio do programa, segundo explica Silva, o Senar Goiás prepara inovações que devem ser implantadas em 2015. A ideia é adquirir mais quatro kits de computadores e oferecer aos participantes treinamentos em instalação e manutenção de hardware e software, elaboração de planilhas de controle, segurança monitorada.

Didática simples conquista produtores

Com uma didática simples, que envolve paciência e até bom humor, o estudante de Veterinária Rafael Bento, um dos três instrutores do programa de Inclusão Digital Rural, do Senar Goiás, leva conhecimento para famílias da zona rural de municípios de Goiás há mais de quatro anos. Pelo menos três mil pessoas em mais de 100 municípios já passaram por suas aulas. Com ele, todos esses alunos aprenderam a importância de ter acesso a novas tecnologias e de adquirir experiências que impactam na atividade rural.

O instrutor conta que cada um dos alunos tem necessidades e dificuldades diferentes. Mas, com paciência, assim como fez com Ambrosina quando ela entrou em sua sala de aula, ele consegue fazer com que todos aprendam o básico para conquistar seus objetivos. Bento relata que já teve aluno de 88 anos, além daqueles que nunca tocaram em computador ou que acreditavam que a tecnologia estava distante de suas realidades. Mesmo assim, ele garante que, em 40 minutos, todos estão digitando.

“Explico para todos que não é difícil, é apenas novo, assim como foi um dia com aparelhos de TV e celular. Causa surpresa, mas sempre digo que é um instrumento necessário para a melhor administração do negócio. É investimento”, observa o instrutor. Durante as aulas, Bento direciona o aprendizado de acordo com a necessidade de cada um e com as tarefas que são desenvolvidas no dia a dia. Quando não há acesso a internet, mesmo com o modem e roteador que ele carrega, o instrutor utiliza um programa off-line para ensinar.

Motivação para adquirir mais conhecimento

Não há uma pergunta sobre plantas que o aposentado José dos Santos Jasse, de 66 anos, não consiga responder. Ele consegue até mesmo ensinar profissionais que lidam com a atividades todos os dias. O aprendizado é fruto das pesquisas feitas por ele em livros de botânica e, há quatro anos, na internet. Jasse, como é conhecido, passou a utilizar a ferramenta com mais frequência depois que passou pelo curso de Inclusão Digital Rural do Senar Goiás, junto com a esposa Elizabete da Cunha Jasse, 62.

Dono da chácara Estância Galo Vermelho, a 12 quilômetros de Anápolis, Jasse cultiva em sua propriedade árvores nativas e frutíferas e medicinais de diferentes partes do país. É um campo vasto de conhecimento, que vai sendo apresentado por Jasse a cada passo dado no local. “Aqui estão angico, cajá-manga, jatobá e jambo”, diz seguido do relato científico de cada uma das árvores.

Jasse conta que o curso foi a oportunidade que ele teve de adquirir mais conhecimento por meio de pesquisas na internet. Antes disso, não tinha como saber, de forma tão fácil, as característica de cada árvore cultivada em sua propriedade. O aposentado recorria aos livros, mas como relata, o processo era demorado, pois passava horas até achar a página que ele tinha interesse. “Expandi meus horizontes”, diz.

Curso é trampolim para novas realizações

A participação no curso de Inclusão Digital, promovido pelo Senar de Goiás, tem sido um trampolim para outras realizações. Conforme observa o instrutor Rafael Bento, com o conhecimento básico das ferramentas de internet e edição de textos, os participantes do programa conseguem acessar sites correlatos ao segmento, como da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Agência Goiana de Desenvolvimento Rural e Fundiário (Emater). Mais do que isso, procuram novo aprendizado inclusive por meio de cursos de empreendedorismo rural, incluindo os disponibilizados de forma gratuita pelo portal do Ensino à Distância (EaD).

O coordenador de ações e projetos do Senar Goiás, Fernando Veiga Domingues, ressalta que, na maior parte dos casos, quando o produtor rural ou trabalhador rural tem noções de internet, ele procura mais conhecimento por meio do Ead – o portal foi lançado pelo Senar Goiás em julho deste ano. Domingues declara que os produtores têm ainda mais facilidade de usar o Ead do que o próprio caderno. Além disso, que se interessam pelos cursos porque não precisam se deslocar de onde estão, basta se matricular, ter um computador e acesso à internet.

Domingues considera todo o aprendizado que envolve os programas de inclusão digital “fantástico”, pois trata-se de um processo onde o produtor rural perde o medo e descobre que é capaz e de resgatar a de auto-estima. “Nesse sentido, cada vez mais aperfeiçoa a forma de usar a internet. É o despertar de uma nova vida nas pessoas”, completa.

Fonte: Jornal O Hoje

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014